abril, 2014

100 anos de Caymmi – saudades


30 abr

Jorge Amado_Caymmi

Encontrei circulando pela internet esta carta que o saudoso Caymmi enviou para o também saudoso Amado.
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“Jorge meu irmão, são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Yemanjá, pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci.

Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês.

Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer uma túnica e ficar irresistível.

Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao

voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta.

Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como

investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?

Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu. Por falar nisso, Stela de Oxóssi é a nova

iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, ikedes e iaôs, todos na roça perguntavam onde anda Obá Arolu que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha?

Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? Um bom filho-da-puta é o que ele é, nosso irmãozinho.

Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James e de João Ubaldo,

daquelas duas ‘línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.

Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Yemanjá que fala em peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar da Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher. Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho.

A bênção, meu padrinho, Oxóssi te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, tua casa é aqui e eu sou teu irmão Caymmi”.

Abaixo uma das minhas músicas preferidas do maestro e professor Caymmi, “Dora”:

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Sarau Suprasensorial na Casa das Rosas


19 abr

O “Sarau Suprasensorial” ganhou a Avenida Paulista.

O “Sarau Suprasensorial” é uma celebração da poesia e dos encontros de linguagens artísticas.

Em suas edições já se apresentaram poetas, escritores, músicos, atores, artistas visuais e convidados da plateia, com o microfone sempre aberto.

A proposta do “Sarau Suprasensorial” é levar ao público o conceito de suprasensorialidade, que teve, entre outros precursores, o finado artista plástico Helio Oiticica.
Literatura, música, performance, cenário, projeções, cheiros, tudo é dirigido aos sentidos do indivíduo para desaliená-lo do condicionamento do cotidiano. Sensações. O público é convidado e estimulado a fazer parte do espetáculo, recitando, cantando, dançando, criando e celebrando a arte de todos.
Trata-se de uma proposição estética e filosófica a partir de um novo comportamento perceptivo: “dilatar a consciência do indivíduo” não mais através do intelecto mas da vivência da liberdade. A passagem de uma participação “simples e estrutural”, para uma participação “sensorial” desemboca na própria vida diária. Interessa o comportamento, isto é, levar os indivíduos a exercer sua liberdade. Esta vivência a ser estimulada, é um instante “criador”, “livre. A vivência do instante sinaliza o início do “suprasensorial”. O suprasensorial (arte ou antiarte) é uma manifestação de caráter coletivo. O suprasensorial é consciente, amoroso, compartilhador.

Em cada edição é definido um tema ou um encontro de autores ou a celebração de algum autor ou obra, sempre com espaço para o novo e o inesperado.

Já realizado em vários espaços de São Paulo e Belo Horizonte, o “Sarau Suprasensorial” é apresentado pelo escritor, jornalista e compositor Wagner Merije, com produção executiva da educadora e atriz Roberta Scatolini.

A primeira edição na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (Av. Paulista, 37, São Paulo), no dia 16/04/2014, foi um sucesso, com participação de convidados ilustres e microfone aberto.

Confira algumas fotos

Arte: Rômulo Garcias

Arte: Rômulo Garcias

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Sarau Suprasensorial_Casa das Rosas

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Viagem a Minas Gerais_Estação Casa das Rosas


17 abr

Foi simplesmente uma noite maravilhosa, inesquecível!
O lançamento do livro “Viagem a Minas Gerais”, de Wagner Merije, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (Av. Paulista, 37, São Paulo), no dia 16/04/2014, foi um sucesso!

Na ocasião aconteceu mais uma edição do Sarau Suprasensorial, com participação de convidados ilustres e microfone aberto e o resultado foi uma confraternização poética muito marcante para todos os presentes!

Confira as fotos

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Paulo Freire em imagens


15 abr

Paulo Freire em imagens

Foto: Merije

Foto: Merije

Foto: Merije

Foto: Merije

Foto: Merije

Foto: Merije

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Perdões


15 abr

Perdão pelos que não amam Minas
Perdão pelos que maltratam as nossas Minas
Perdão pelos que traíram a pátria
Perdão pelos enforcados todos os dias
Perdão pelos estão tentando matar o São Francisco
Perdão pelos que estão inundando terras para hidrelétricas
Perdão pelas promessas de campanha não cumpridas
Perdão pelas crianças tomadas pelo crack
Perdão pelos que prenderam e exilaram o educador Paulo Freire
Perdão pelos diplomas falsos
Perdão pelos beijos roubados
Perdão pelos que não têm pecado
Perdão pela minha pouca idade
Perdão pela minha insatisfação
Mil Perdões
Perdão por todos nós
Em todas as línguas
Mas não há o que perdoar
Nem mesmo há perdão

Do livro “Viagem a Minas Gerais”

Foto: Merije

Foto: Merije

Foto: Merije

Foto: Merije

Foto: Merije

Foto: Merije

Imagem: Paulica Santos

Imagem: Paulica Santos

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Acidente poético (Viagem a Minas Gerais)


14 abr

Tá lá o poeta estendido no chão
Sem carteira assinada, sem plano de saúde
Atropelado por um ônibus que não parou
Não parou para a poesia passar
Voou livro para todo lado
Quebrou o sonho em sete partes
As vísceras de seu discurso estão à mostra
Já aglomeram muitos curiosos
Tem gente filmando no celular
Chama o Samu, 190
Parou o trânsito vira o caos
Parece que o cara tá mal
O poeta caído no chão
Ninguém chega para ajudar
Do seu bolso um poema novo escorre
Incompleto como aqueles ali olhando para ele
Tá sangrando poesia para todo lado
A polícia chega com a sirene a toda
A turba aproveita para gritar
Uma senhora começa a chorar
Não é a mãe mas é a única a acodir
Ajoelha nas páginas dos livros
E abraça o poeta destroçado
O poeta ali morre não morre
Mas a poesia era aquela mulher
Corajosa com um amor na mão
Viu que o homem ali caído
Podia ser um filho dela
Filho que ela nunca tivera
Mas na EJA, depois do trabalho
Descobriu na leitura um novo processo
Onde tudo que sonha é possível
E os homens do Samu vinham com a maca
Enquanto a polícia cercava o local
Os celulares registravam tudo
Corre aí
Dá oxigênio para o poeta
Que ele pode sobreviver
Vamos levar para o Pronto-Socorro
Que gente assim
Merece viver

Do livro “Viagem a Minas Gerais”

livros no chão

livro e flor

Queima de livros_Pablo Di Boylio

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Primavera dos Livros


13 abr

A Primavera dos Livros 2014 em São Paulo já deixa saudades!
Merije_Primavera dos Livros SP_13042014

Cel Bentin_Eduardo Lacerda_Merije_Primavera dos Livros 2014
Cel Bentin, Eduardo Lacerda, Merije – Stand Editora Patuá

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Sarau do Memorial com Rômulo Garcias e Domingas Alvim


11 abr

Sarau  de Abril

Curadoria: Wagner Merije

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Tantos Josés


10 abr

E agora José?
Tantas vezes me perguntei

O José que eu sou e é
Tem fé, o resto eu não sei

E agora, José?
Hora de soltar a voz
Quem eu sou, quem tu és?
Ó José que existe em nós!

José Segue em Frente
José Tiradentes
José Paciente
José Presidente
José na fisioterapia
José na psicanálise
José todo dia
José noutra fase

E agora José?
Para onde nós vamos?
Hora de testar sua fé
No ser humano

E agora José?
O que é ser egoísta?
Me fale da ralé
Da batalha à vista

José de Arimatéia
José de Dubai
José Colméia
José meu pai
José faz o bem
José carrega a cruz
José Ninguém
José Pai de Jesus

E agora José?
E agora, José?
Quem à sós tu és?

Do livro “Viagem a Minas Gerais”

e-agora

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Descobertas científicas


09 abr

No vão do buraco, ali
No vau da sarapalha
Avizinhado na Urucuia da alma
Do brejo dos mártires
Meu cavalo cansado parou…
Inteligente, respiração ofegante
Escolheu dentre as treze línguas
Em que se expressava, a agreste
Para me dizer a miúdo:
– Houve o vento, nele uma manada
Voando no contratempo, nonada
– Sim, vamos em frente
De asas largas
Que nosso destino é Passargada
Nas curvas
As descobertas científicas
Edificadas

Do livro “Viagem a Minas Gerais”

sallie_gardner_at_a_gallop

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