janeiro, 2016

Não acredito acreditando


21 jan

Não acredito em Poeta

que não lava a Própria cUeca

não Acredito em Homem

que não lava A própria consCiência

Não acredito em políCia

que não faça a Sua própria cOmida

não acrediTo em polícia

batEr e prender pra Mim não é Vida

Não acredito em diretor de TV

que iGnore que um dia Já fomos Nada

não acredito em diRetor de TV

é mais cego o Que não quer ver

Não acrediTo em presiDenta

que com o povo não Se entenda

não aCredito em presidenta

mas o respeito se mAntém e se aliMenta

Não acredito em advoGado

que não sabe o qUe é ser considerado

não acredito eM advogado

que esconDa o seu passado

Não acredito em pastOr

que iLude o sofredor

não acredito em pAdre

que não reParte com amor

Não acredito em políTico

que não pensa e aGe pelo coletivo

não acRedito em político

que apela para o Cinismo

Não acredito em proFessor

que não Tenha ideais

não acreDito em professor

que nem amar o outro é capaZ

Não acredito em cozinNheiro

que Não ame um meXido

não acredito em cOzinheiro

que cozinha por dinHeiro e pra ficar Famoso

Não acredito em pessoa

que se ache Muito fera

não acredito Em vão

Só acredito nos pais

nos pais e nas mães

que trocam fralda de cocô

que dão banho

que fazem comida e dão para os filhos

que escovam os dentes e dão vitamina

que fazem inalação no inverno

e levam para passear todo dia

que passam horas em claro de noite

e o dia inteiro correndo

que lêem histórias e estimulam as crianças

que são multimídia por destino e natureza

e amam o que fazem

No tempo e em cada momento

estes se farão vencedores

 

 


(Um poema em construção de Wagner Merije)

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em mim todos os sonhos do mundo


04 jan

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada, pensou. Mas ele sabia que à parte isso, tinha em si todos os sonhos do mundo.

Por isso ele resolveu pegar aquela camiseta branca velha e pintar a frase de Fernando Pessoa. Na frente e atrás. E quando terminou, deu um beijo na mãe, tomou um copo d’água e se despediu, dizendo que ia se encontrar com uns amigos.

A mãe, que na noite passada tinha tido um pesadelo em que via um corpo boiando inerte em uma piscina, achou estranho, sentiu um negócio esquisito no peito, mas se limitou a dizer “Se cuide meu filho!”

Ia encontrar com os amigos era para protestar. Protestar contra o governo. Contra as arbitrariedades. Uma palavra tão cabulosa que deve ter sido inventada em tempos difíceis. Basta repetir: arbitrariedades. Coisa louca, nunca é uma só. São arbitrariedades.

Quando chegou no ponto de encontro já estava rolando confronto. Precisou pouco para isso. A polícia vai esperando a deixa. E alguns sempre vão pro sacrifício. Não é nada difícil isso acontecer.

Passou pela galera ansiosa ansioso, se infiltrou no meio da turma, chegou na linha de frente. Parou. Olhou. Acomodou o corpo. Tentando manter a calma, ele estava de frente pros homi. É treta! Impossível a perna não tremer e o suor não brotejar na testa. Começou a contar: um, dois, três, seis, oito, treze, dezenove policiais, quantos são, peraí, trinta e três, quarenta e quatro… Vem chegando mais, o quê que está pegando mesmo?

Qual é meu nome, Hermano ou Diego? A mente turva, a cabeça a milhão, ele na linha de frente do confronto. A essa hora a mãe, que assistia TV, já estava recebendo flashs do protesto dos estudantes contra o fechamento de escolas. “A situação está tensa”, anunciava a repórter e as câmeras mostravam os estudantes sentados em carteiras, no meio da rua dos carros, impávidos, silenciosos, resistentes como Gandhi. E do outro lado, num mar de luzes piscando das viaturas, um batalhão inteiro de policiais, com cavalaria, cães, tropa de choque, blindados, motos, um arsenal pesado.

No fundo, todo mundo rangendo dentes. Estavam na frente de uma delegacia. O território é deles, do “ladonegrodaforça”, rolava a hashtag. Tem que tomar cuidado, evitar o confronto.

Só que o inesperado acontece. Um cachorro escapou da mão de um dos guardas e saiu correndo como um foguete. Voou no primeiro que viu. No pescoço. Como um tiro seco.

Os estudantes gritaram. Os policiais foram para cima. A mãe, que já tinha visto tudo pela TV, corria para lá. Correu e chegou na hora.

Que hora é essa, Hermano ou Diego? De despedir, mãe! Em pedaços os dois, sem ninguém poder fazer nada.

Filho. Um filho. Só quem tem filho sabe o que é mexer com um filho seu. “Cadê meu filho? Me dêem meu filho de volta! Vocês mataram meu filho!”, ela gritava, ajoelhada aos pés dele.

O que ela disse quase ninguém ouviu. Outras mães iriam se juntar a ela logo depois. Em meio a muita violência. Muita mesmo.

Eram só estudantes, Es-tu-dan-tes! Jovens! Futuro do Brasil!! Todos os sonhos do mundo e alguns mais. Protestando contra o fechamento das escolas deles, nada mais justo!!!

Por quê que matam as pessoas?

Quem é que autoriza tudo isso?

 (Um conto de Wagner Merije)

 

 

 

Tenho em mim todos os sonhos do mundo

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